segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Emendando o tempo




                           Lourdinha Leite Barbosa

A agulha do tempo costura a bainha dos dias
perdidos nas verdes veredas da inocência.
Tempo das primaveras, esgarçadas quimeras

debruçadas nas carcomidas cercas.

Das chuvas que lavam o alpendre e as dores apascentam.

Risos e vozes infantis ainda ressoam
entre paredes inexistentes.

A figura do meu pai esfuma-se na curva do caminho e
retorna a galope no vento.

Eterno é o tempo.

Os sonhos perdidos são molambos

pendurados nos varais da mente.

Da juventude o calor, do interdito o medo.
Água represada na nascente.

domingo, 5 de agosto de 2012

"Um tempo sem nome"

Rosiska Darcy de Oliveira, O Globo, 21/01/12

Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.

Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida .

Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.

A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.

Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.

Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem, que anunciavam o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.

A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.

”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição. Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.

segunda-feira, 30 de julho de 2012


PERDIDOS & ACHADOS


                                                                         Lourdinha Leite Barbosa
Caminhava como quem se perde de propósito. Ao virar uma esquina, seus olhos encontraram os dele. Olhos tristes de quem já sofreu muitos revezes. Não se tocaram, mas se entenderam. Ele acompanhou-a silenciosamente. A cada passo, olhava-a como se pedisse um afago. Apiedada, ela acariciou sua cabeça e ele encolheu-se de prazer e lambeu sua mão.
Era um vira-lata solitário, e ela, tocada, decidiu levá-lo para casa. Não mais precisariam se perder

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A arte de engolir palavras

                                                                                         Aíla Sampaio
 
Escrever é uma arte e, como toda arte, requer perícia. No caso da literatura, pode-se dizer que o texto é ‘tecido’ pela arte de engolir e ‘desengolir’ palavras, numa atitude consciente da criação. Lourdinha Leite Barbosa, em seu livro de contos “A arte de engolir palavras” já anuncia esse processo a partir do título da obra, que Vicência Jaguaribe bem marcou como uma reflexão metalinguística. O conto homônimo é uma metáfora desse exercício, sem dúvida.

Embora se saiba que a inventividade não decorra de técnicas, mas do poder de captar, da imaginação, da observação ou da memória, a matéria sensível que dá ‘vida’ aos enredos, percebe-se, nos contos de Lourdinha, o apuro formal de quem bem domina a técnica do conto. Sua frase enxuta e seus enredos concisos mostram um trabalho de linguagem cuidadoso, elaborado com precisão e consciência. A teoria literária, como as tantas teorias do texto, se diluem no uso de recursos como a intertextualidade, o efeito fantástico e a ambigüidade. Seus textos não subestimam o leitor, ao contrário, convidam-no ao mergulho, à prospecção, à construção da lógica (ou da subversão dela) que subjaz nas entrelinhas.

Fantástico, gênero que se estabelece a partir de um acontecimento não explicável pelas leis da razão, está presente em pelo menos seis das narrativas do livro. Destaca-se a sutileza com que a autora consegue construir o clima extranatural, de forma tão harmoniosa, ao trabalhar um tema tradicional como ‘o duplo’, no conto “A viagem” (p.32).

É este um dos mais antigos temas explorados pela literatura, tendo aparecido mais notoriamente no século XIX, quando vieram a lume as produções de E. T. A. Hoffmann, Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant e Dostoievski. A sua origem, no entanto, remonta à Antigüidade Clássica, pois, como afirma Clément Rosset (1976:61), “os personagens de Sósia ou de irmão-gêmeo ocupam um lugar no teatro antigo, como no Anfitrião ou em Os Menecmas de Plauto”. O tema ultrapassa a expressão literária, estendendo-se, ainda, à pintura e à música.
O desdobramento do eu que, na realidade, vem possibilitar o encontro desse eu consigo mesmo, resulta, geralmente, de um conflito existencial que leva o sujeito a buscar a sua verdadeira essência. Clément Rosset (1976) afirma que a restituição desse eu, ou seja, essa “reconciliação de si consigo mesmo” (p. 77), ansiada pelo indivíduo em conflito, só é possível através da aniquilação do duplo. Já na literatura romântica, conforme assinala o filósofo, ocorre o contrário, pois “a perda do duplo, do reflexo, da sombra não é [...] libertação, mas efeito maléfico” (p. 78). A destruição do duplo implica a destruição do eu. No seu ponto de vista, inclusive, o duplo não passa de uma ilusão: “Quem repete não diz nada, quer dizer, não é nem capaz de repetir-se. O original deve dispensar qualquer imagem: se não me encontro em mim mesmo, reencontrar-me-ei ainda bem menos no meu eco. É preciso então que eu seja suficiente, por menor que seja ou pareça na realidade: porque a escolha se limita ao único, que é muito pouco, e ao seu duplo que não é nada (ROSSET, 1976: 83-4).
A narrativa do conto “A viagem”, de Lourdinha, não dá nenhuma pista sobre a moça, que não tem nome nem idade ou qualquer característica que faça o leitor criar uma imagem. Sua aparição dá-se já quase como um ser etéreo, que vai ao encontro do seu destino. Seu? “Tinha encontrado o misterioso bilhete, com a hora da viagem, o número do guichê e o código, sobre a mesinha de cabeceira do namorado e resolvera descobrir aonde ele ia e com quem”. Logo ela se apercebe que “varou a noite sem saber o motivo e o destino da viagem” e questiona se realmente estaria ali por acaso.

Sem entender , após dar a senha ao ‘homem alto e magro’ do guichê, recebe o tíquete e um livro de capa azul sem qualquer inscrição. Também sem autor e com um título em língua desconhecida, o livro traz textos em língua inteligível e desenhos estranhos: “um ovo, contendo uma figura metade macho, metade fêmea, sobre um dragão alado; um pássaro de asas abertas, cuja sombra era uma figura humana; uma cruz, cujos braços terminavam em triângulos, e embaixo de cada braço, um círculo com um quadrado dentro. Uma seta feita à mão, apontava para um deles: um círculo sextavado, com vários círculos concêntricos, interrompidos em certos pontos”. O mistério se ‘concretiza’ e o significado da senha – Hâdi – bem como do símbolo indicado pela seta, causam certa inquietação no leitor. A personagem, entretanto, limita-se a tentar decifrar o símbolo e a incomodar-se com o vazio na estação, no restaurante e no próprio trem. Só no vagão indicado no tíquete há pessoas.

Assustada com a ausência de estrutura para a viagem – não há sequer camareiro ou funcionário no trem- ela, após percorrer todos os vagões e perceber que não há ninguém, retorna ao seu e se dirige às pessoas, demonstrando seu nervosismo na tentativa de compreender a situação. Os passageiros, na tranquilidade dos que já tudo entenderam, respondem-na com certo desvelo, como a se darem conta de que ela precisa se acalmar: “Os dois velhinhos pareciam não ter entendido. A senhora de meia-idade procurou acalmá-la”; “contemporizou o homem de olhos azuis”; “Todos se entreolharam”; “A jovem de cinza acompanhou-a”. Solenes como os mortos, os passageiros do trem deslizam sobre os trilhos, em velocidade lenta e, sem saberem aonde ou a que vão, chegam a uma estação iluminada, sem indicações; ‘um prédio deserto de paredes completamente brancas e nuas’. A reação da moça, a única a, aparentemente, não saber o que se passa, é de ‘calafrio’, solidão, medo.
O Fantástico vai-se construindo no insólito dos acontecimentos, na ausência de explicações para a situação incomum, na inquietude do comportamento da personagem – assustada, nervosa -, no espaço sem identificação, híbrido como a morada dos mortos... A senha ‘Hâdi’ indicaria uma passagem para a morada de Hades? Perdida no labirinto da passagem entre a vida e a morte, ela decifrou o símbolo e lembrou dos jogos da palavra cruzada, de desenho idêntico... mas sua saída foi o sono, o entorpecimento da consciência até a chegada ao ‘fim da linha’. Não se sabe se esse sono se dá antes ou após a descida na estação iluminada. Não há notações temporais contínuas.

O leitor atento não hesita, sabe que o percurso no trem foi a preparação para a irrupção do insólito; de dentro do trem, ela enxerga seu próprio vulto a esperá-la na estação: “Aos poucos, foi divisando o prédio da estação e um vulto solitário de pé na plataforma. Ao acercar-se, faltou-lhe o ar e todo o seu corpo ficou paralisado pelo pavor: a mulher que da plataforma a fitava era ela mesma”. Embora a personagem esboce reação ante o sobrenatural, o Fantástico se estabelece de forma bastante sutil – moderna, pode-se dizer -, pois a morte não é tratada de forma maléfica, tampouco o vulto que aparece traz contornos de um fantasma; não na acepção do reaparecimento de uma alma penada, que volta à vida para causar assombro, mas da aparição de uma mulher que não sabe sua condição e mantém o seu antigo aspecto, longe das formas indefinidas e evanescentes (HOLANDA, 1986: 757), próprias do fantasma tradicional.

Como já se falou, procurando concretizar essa ilusão – o duplo –, a literatura fantástica explora tanto a restituição quanto à aniquilação do eu. A linha mais tradicional segue a trilha da literatura romântica que, como citou Rosset, percebe na destruição do duplo a aniquilação do próprio eu. Já a moderna, concebe esse encontro como a restituição desse eu, ou seja, essa “reconciliação de si consigo mesmo”. Qual seria o caso do conto “A viagem? Ora, é exatamente a ambigüidade o princípio constitutivo do Fantástico nesse conto: estaria a personagem apenas sonhando e acordara? O conto, possivelmente carregado da preocupação existencial da autora, teria colocado na moça as inquietações humanas dos que se encontram pedidos de si e buscam reencontrar-se? Ou estaria ela mesmo morta, fazendo a viagem simbólica à ‘morada dos mortos’? O discurso não permite respostas e é, certamente, nessa incerteza que o Fantástico se consolida.

BIBLIOGRAFIA:

FERREIRA, Aurélio B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

FURTADO, Filipe, A construção do fantástico na narrativa. Lisboa: Livros Horizonte, 1980.

JAGUARIBE, Vicência Mª Freitas. Sobre a arte de engolir palavras e suas outras artes. In: LEITE BARBOSA, Lourdinha. A arte de engolir palavras. Bagaço, Fortaleza, 2002 pp.77-95.

LEITE BARBOSA, Lourdinha. A arte de engolir palavras. Bagaço, Fortaleza, 2002.

ROSSET, Clément. O real e seu duplo, 1976.

TODOROV, Tzvetan . Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1975.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Diálogo em versos

Este diálogo entre mim e o Poeta de Meia Tigela ocorreu por correspondência, ainda não nos encontramos, mas espero abraçá-lo em breve.

1.
Muito embora pavorosa
Minha palavra – mefítica,
Ofereço-a à contista
Lourdinha Leite Barbosa!

2.
Cada um dá o que tem
ou o que sabe fazer,
o poeta oferta versos.
O prosador desconversa
e conta um fato qualquer.
Eu que não sei poetar,
só quero dizer sem trela:
Muito obrigada, amigo,
Poeta de Meia Tigela!

Lourdinha Leite Barbosa

Leitura investigativa do conto Além das Aparências

Quem conta um conto acrescenta um ponto. Pelo visto quem o lê também o faz. Assim, ao finalizar a leitura deste belo texto da escritora Lourdinha Leite Barbosa, senti-me encorajada a seguir o adágio popular. Sem pretensão de fazer crítica literária, esta é apenas a leitura de alguém que reconhece o valor e a necessidade da criação ficcional.

A autora antecipa pelo título, "Além das aparências", a ultrapassagem do círculo limitante da realidade imediata. Para isso mergulhou em profundas águas de onde foi capaz de apreender inumeráveis facetas da experiência humana e, quem sabe, nos tornar conscientes delas. Afinal, através da recriação, a literatura mostra que o real pode ser transformado.

Utilizando-se de uma linguagem elaborada, que em várias passagens beira o poético, Lourdinha fala da necessidade que tem o ser humano de completar sua vida incompleta. As personagens são anônimas, apenas um homem e uma mulher. Entre eles um abismo de anseios, angústias e segredos: "...loucos pensamentos na constante tentativa de captar o mais leve estado da alma daquela mulher cujo corpo ele já possuía". Frente à impossibilidade de ser plenamente saciado pelo objeto de seu amor, o homem se mostra insatisfeito. O desnudamento já não é suficiente, é preciso atingir o ser da parceira. O homem quer, além da violação do corpo, a da alma e constata, por conta disso, que "então ele não tinha nada, somente um invólucro sem conteúdo".

Isso nos remete ao primitivo anseio de fusão e apoderamento própria da relação simbiótica. O homem se apega à ilusão de que ao "tê-la por inteiro", ao "ultrapassar a matéria e chegar à essência", ao se dedicar à inconcebível posse da mulher, será possível reencontrar a unidade perdida.

Exaspera-se e "sai como um louco, observando as mulheres que se desdobram em busca da vida, enquanto escondem nos bolsos os sonhos mais caros". Com apurada sensibilidade, Lourdinha leva-nos a pressentir que o personagem, num estado de total solidão, identifica-se com todos que pagam por aqueles corpos, sem compreender exatamente o que procuram. Mas ele sabe. Sabe que mesmo quando a mulher se oferece não se entrega totalmente. Recusa a associação que se insinua entre a mulher que não lhe dá a alma e aquelas que vendem o corpo. Sente que o amor tem seu custo.

Sua mente não se aquieta, os mesmos pensamentos repetidamente recomeçam: "...que sonhos ela guardaria?" A cabeça explode, a energia se esvai "cresce a ânsia de tê-la por inteiro". Os traços obsessivos se agigantam e a neurose se instala. Engessado em si mesmo pensa, pensa, pensa tanto, que paralisa qualquer ação.

A mulher chega, "inconsciente do conflito que provoca no marido", quer apenas o reconforto do retorno. Liga a televisão, única voz que há tempos agita a monotonia e o tédio cotidianos. Está só e "descobre nos olhos que a observam do espelho o desgaste provocado pelo fluir do tempo". Talvez pense nos sonhos, emoções e fantasias nunca compartilhadas.

Afasta a melancolia e com "um toque no controle remoto desliga a realidade", a sua e a do mundo. A alma continua do mesmo modo: inviolada.

Nenhum diálogo, nenhum movimento em direção ao outro. O homem que sonha em capturar a alma da mulher ignora que juntos, homem e mulher se fortalecem. Persiste, então, entre eles um silêncio sepulcral. Nenhuma palavra escapa ou mesmo surpreende.

O homem, "na madrugada, demora o olhar sobre a mulher" e "cobre-lhe o rosto com o lençol", quem sabe por não suportar o que vê em si mesmo através do rosto dela.

BEATRIZ JUCÁ
COLABORADORA*
* Psicóloga

Traços do estilo

(ontinuação do texto de Laéria Fontenele)

Publicado em 16 de outubro de 2011
Compartilhamento


Mas como ela o faz? O narrador persegue com vigor o núcleo da palavra por intermédio da figura-imagem, mas o que tem por resultado é atualização da distância da sua zona de silêncio. Por isso mesmo, muitos dos contos de Lourdinha Leite Barbosa são prenhes de cromatismo, são picturais. Por isso, observamos que, pela moldura da janela, a voz narrativa atualiza apenas um momento do olhar, o que separa o horizonte que os olhos vislumbram sempre tão longe e aquilo que nos é mais íntimo, nos é mais fático e mais banal. Esse é o justamente o instante responsável por separar a ficção e o osso da realidade. (Texto IV)

Nos diversos contos do livro podemos constatar que o mundo, como espaço de sentido, é desarmônico, tanto quanto o é a realidade cotidiana vivida pelas personagens e o que se projeta para além dela como espaço do desejo. Mas nem mesmo a fantasia, que o horizonte vislumbrado pelo olho do narrador aciona, é capaz de promover a simetria dos elementos, das coisas e, sobretudo, do querer de homens e mulheres, algo insiste em não significar apesar da potencialidade polifônica do significante, tão presente nos contos. É justamente a exposição disso que está para além do sentido o que dá, a nosso ver, uma tonalidade sutilmente erótica à ficção de Lourdinha Leite Barbosa, mas também é o que se torna imperativo à própria feitura dos seus contos: a concisão, ou seja, a precisão com que trabalha a linguagem e a brevidade narrativa, que resulta em tentar capturar o que há de fugidio no próprio instante em que olhar se destaca do olho e cai, tornando baça a vidraça da janela.

Eles & elas

A tela da fantasia, projetada nos contos de Lourdinha Leite Barbosa, também revela a dissimetria entre eles e elas; não à toa, a vez deles e delas não é a mesma. Essa demarcação da diferença entre o querer feminino e masculino se manifesta não apenas nos caminhos e descaminhos de homens e mulheres, vistos a partir do olhar do narrador. ou nele encarnados, mas na própria estruturação do livro. Tal modo de dispor os contos no espaço do livro mostra que, apesar de seus poderes, a fantasia não é capaz de reunir numa só tela a vez deles e a vez delas. (Texto V)

A seu modo, Lourdinha Leite Barbosa revela, por intermédio do literário, que o muro que separa o homem da mulher é o mesmo que separa os Falaseres do mundo, mas mesmo que as palavras possam servir de pontes entre eles, serão apenas ponte, frutos de uma construção, e que às vezes desabam ou são corroídas pelo tempo. Mas o que faz das personagens homens ou mulheres? É, justamente, a projeção fantasística do narrador que, ao tentar diminuir o abismo que os separa, oferece ao olhar do leitor, despertando-o para a problemática reprimida da alteridade e convidando-o para recompô-la por meio do gozo da obra, onde o leitor poderá, conforme Paul-Laurente Assoun, gozar suas próprias fantasias sem qualquer reprovação ou qualquer vergonha.

Narrador & leitor

Não se trata do narrador transferir a sua fantasia para o leitor, mas deste ter sua fantasia restituída por aquele, por isso a leitura é prazerosa e distrai. Ocorre no ato da leitura a produção de prazer. O narrador de Pela moldura da Janela oferece-se ao seu leitor de modo a ser por este tomado como alteridade simbólica. Com isso busca proporcionar a descarga da tensão que a própria narrativa constrói. Por isso, a leitura é uma poderosa distração, provoca satisfação e alívio. A estrutura do chiste, que consiste num processo social entre o narrador da piada, o seu destinatário e a iluminação que provoca o riso, se encontra presente no modo como se dá o enlace entre o narrador e o leitor implícito da ficção de L. L. Barbosa. Aí o prazer confina com a realização do sentido do chiste, o que se encontra sugerido nas entrelinhas do discurso ficcional. Do seu dito salta o dizer; de sua escrita, cores e ritmos. Palavras cambaleiam sob agitadas águas, mas não afundam.

Trechos

TEXTO IV

Uma poeira fina cobria móveis e invadia frestas,e o constante baticum impedia qualquer tentativa de sossego. Mas tudo isso não era nada, se comparado às mudanças ocorridas no comportamento dos moradores. Antigos hábitos tiveram de ser abandonados: ninguém mais circulava só de roupa de baixo ou saía do banheiro enrolado em toalha. Agora, a preocupação era com cortinas e janelas. Cuidado! Feche a cortina. Está muito quente! Abra a janela só um pouquinho. A primeira providência foi colocar uma película escura sobre as vidraças, mas essa solução trouxe novos problemas: quando se fechavam as janelas, era preciso acender luzes
e ligar ventiladores ou aparelhos
de ar -condicionado.

("Mas que los hay, los hay", p. 37)

TEXTO V

Equilibrando -se entre imagens, letras e sinais de trânsito, estacionou em frente ao colégio. O garoto saiu numa desabalada carreira, sem que ele pudesse
detê -lo. Tentou acompanhá -lo e quase foi atropelado por um grupo de palavras que se embaralhavam em sua mente. Indiferente aos gritos do pai, o menino estancou diante de uma pilha de revistas em quadrinhos que um rapazote arrumava na calçada. De repente, imagens e letras confundiram -se de vez. Já não eram somente os olhos do menino que devoravam as revistas; o pai, deslumbrado, não conseguia afastar o olhar delas. ("Entre imagens e letras", p. 83)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A ficção de Lourdinha Leite Barbosa

Publicado em 16 de outubro de 2011


O livro "Pela moldura da janela & outras histórias", de Lourdinha Leite Barbosa, foi agraciado pela Academia Cearense de Letras com o Prêmio Milton Martins de Contos. Isto, por si só, já lhe aponta o reconhecimento de seu valor literário.

A autora também dispensa apresentação. Seu mérito profissional e literário é atestado com frequência por seus pares. Aqueles que a conhecem, sabem que a sua intimidade com as letras vem dos longes de sua história, tendo ela se feito matéria de sua trajetória - de Professora e de pesquisadora da UECE, de ensaísta e de ficcionista - e que pode ser atestada por suas diversas publicações em revistas especializadas, livros e coletâneas. É membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste, da qual foi presidente de dinamismo marcante, colorido por seu amor a tudo aquilo a que se dedica. Sendo, no momento, um dos membros de sua direção.

A tessitura ficcional

No texto de apresentação que escrevemos para constar em "Pela moldura da janela e outras histórias" tivemos a oportunidade de discorrer sobre os principais aspectos formais que caracterizam a sua tessitura ficcional. Eles nos permitem caracterizar o estilo de sua autora, seu modo de recortar com a palavra o real.

Aspiramos aqui, tão-somente, falar-lhes de um detalhe para o qual chamamos a atenção do leitor: um tipo de efeito estético, que se depreende da narrativa, que nos permite aproximar seus contos da pintura, afastando-se do modo convencional com que se ordenam os elementos como o tempo, o espaço, o foco e o discurso na construção da narrativa.

Singularidades

Ambicionamos abordar esse aspecto por considerar ser ele o mais singular desse seu novo livro, e o que mais diz do seu estilo, pois, residi nisso uma singularidade. O modelo do estilo, por sua vez, faz confluir a ética e a estética, ponto fundamental na consideração estilística do literário, consoante o entendimento que fazemos desse aspecto, dentre tantos outros que dizem de sua desafiadora face. (Texto I)

O título, embora nos reenvie para um dos contos, diz por via metonímica muito das outras histórias do livro. Nele, o olhar do narrador pende da janela, mas qual a posição de seu olho? Localizado numa zona de fronteira - a moldura - portanto situado dentro e fora dela -, observa-se a produção textual do desequilíbrio das forças contrastantes ou surpreendentes que desfiguram o cotidiano de suas personagens. Por intermédio da própria materialidade da escritura, na medida em que expõe a vocação polifônica da palavra e a as suas fraturas a um só tempo: sua face significante e de letra. (Texto II)

Dos efeitos dessa exposição, resulta o que Lyotard (1971) relaciona com a origem não significável da linguagem: "le silence contenu dans la parole". A autora atesta com seus contos a realidade desse silêncio elementar; e sua busca consiste em melhor figurá-lo. Tarefa que se concretiza na sua escrita, que se situa no limite dos campos privilegiados à sua figuração: a ordem da linguagem - especialmente através da produção do ritmo próprio ao campo poético por meio da figura-forma - e o campo pictural por meio da figura- imagem.

Trata-se de uma escrita que navega em ziguezague à cata das aventuras do significante. (Texto III)

A moldura

A singularidade desse procedimento resulta em uma sorte de metaficção, onde se confundem a feitura do ficcional com a potência e a impotência da palavra em significar o impossível, por isso mesmo, além da exposição desse limite, o que a autora projeta a partir da moldura da janela é a tela mesma da fantasia e por esse procedimento frutifica a relação de cumplicidade entre o texto e o seu leitor. Este tem por vocação, no silêncio mesmo de sua leitura, dar um sub-tratamento à fantasia do autor - que no caso do livro oscila entre sua produção e dissolução, pois, em muitos momentos, o cromatismo que se impõe como processo de significação, aspira, justamente, recompor a fratura que as epifanias provocam na fantasia - o despertar para o real intolerável - convocando o leitor novamente ao sonho. Dessa forma, a produção do sentido depende desse entrelaçamento entre a fantasia do autor e a fantasia do leitor que a voz narrativa procura, assim, potencializar.

Trechos

TEXTO I

Os quadros mais antigos se alargaram e forçaram os mais recentes a se comprimirem. Nesse empurra-empurra, alguns se inclinaram. Ingrid percebeu um leve rumor e recolocou -os em seus lugares. As cinco mulheres de branco que se dirigiam às suas casinhas, no quadro de moldura negra, assustaram -se com o movimento e apressaram o passo.

A luz atravessou a janela e pousou sobre o quadro em que uma moça caminhava por uma rua ensolarada. Ela estancou, largou a cesta que mantinha encostada ao quadril e rodopiou sobre o calçamento irregular. ("Quadros em movimento", p. 43)

TEXTO II

Acordou com os primeiros raios de sol, abriu a janela e foi surpreendida por uma cena inusitada: no apartamento em frente, um casal fazia amor com as janelas abertas. Sentiu -se atraída pela perfeição dos corpos em movimento e uma sensação de plenitude a invadiu. Longos eram os cabelos da mulher, ruivas faíscas sobre o lençol. O branco de sua pele contrastava com os escuros braços lascivos que a envolviam.

Sentindo -se observada, a moça fechou a cortina. Percebeu, então, que a cinza cortina que recobria seus olhos havia -se rompido.

("Pela moldura da janela", p. 22)

TEXTO III

Tentando controlar o tropel das recordações, o filho entrou na casa trazendo a filha menor pela mão, vinha cumprir a terrível missão de desalojar suas mais caras recordações. Ali, permaneciam intocadas sua infância e juventude, desaninhar uma ausência tão presente e violar seus segredos era abrir uma ferida ainda não sarada. Fotos, orações, documentos, já não tinham qualquer serventia. Por entre frestas, podia ouvir o ressoar da voz materna:

"Não sei onde guardei aquelas fotos das bodas de sua tia Antonieta", "Veja esta foto de minha irmã Stela aos dois anos".

Eram lembranças de uma vida, cujos personagens perderam -se no tempo.

Buliçosa, a menina abria e fechava gavetas sem que o pai, aprisionado no passado, percebesse. De posse da velha agenda, ela debruçou -se na cama e começou a escrever o nome e telefone de suas amigas sobre as linhas esbranquiçadas, avivando as borboletas azuis, que, levemente, retomavam seu voo.

LAÉRIA FONTENELE
COLABORADORA*
*Psicanalista e prof. da UFC

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sábado, 15 de outubro de 2011

Ai palavras



Ai palavras, ai palavras,
que estranha potência a vossa!
Sois de vento, ides no vento,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
(...)
Ai palavras, ai palavras,
que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
Principia à vossa porta
(Cecília Meireles, “Romance LII ou das Palavras Aéreas)
A língua define o mapa,
traça linhas, tece fios,
entre dentes desafia
os que querem amordaçá-la.
Rebela-se solta o verbo,
dá com a língua nos
dentes, rompe barreiras,
renova-se,
une povos,
continentes.

Lourdinha Leite Barbosa

As molduras ficcionais de Lourdinha Leite Barbosa




PELA MOLDURA DA JANELA & outras histórias, segundo livro de contos de Lourdinha Leite Barbosa, traz 22 histórias distribuídas em três blocos: “A vez delas”, onde temos narrativas que focalizam nuances de personagens femininas; “A vez deles”, que abre espaço ao universo masculino, e “Dois pra lá dois pra cá”, com quatro contos que, dois a dois, contam e recontam o mesmo enredo por meio de pontos de vista diferentes.

Suas narrativas são concisas, sua linguagem é simples, mas velada em símbolos que puxam a atenção do leitor. Por que o mundo perde as cores para a protagonista do conto “Pela moldura da janela”? Por que as borboletas da capa da agenda ‘voltam a voar’ quando a menina passa a utilizá-la, após a morte da avó? Por que o segundo lote de vinho servido é melhor que o primeiro (em “Casamento no Campo”)? Qual dos irmãos fala a verdade (“Costurando a trama” e “Descosturando a trama”). Pequenas inquietações se formam com as provocações daquilo que é menos dito e mais sugerido.

Sua matéria é o cotidiano em desordem: o amor que finda, a velhice, a morte, os desencontros, as limitações humanas, o ciúme, a traição, a vingança, a loucura, a cidade e suas tramas. Nada, entretanto, imprime pessimismo à sua escritura denunciadora dos desequilíbrios, ao contrário, há sempre a possibilidade de renascimento e renovação, como ela bem simboliza na figura das borboletas azuis, desenhos na capa de uma agenda, que parecem ganhar vida na imaginação do leitor.

O título do livro – Pela moldura da janela – também título do conto que abre a coletânea, ratifica o que diz a psicanalista e professora Laéria Fontenele no Prefácio: “Os contos de Lourdinha Leite Barbosa aproximam-se de um quadro”. De fato, são cenas emolduradas, recortes de instantes que ganham vida na sua criação prodigiosa. Os personagens não têm passado nem futuro, só o momento fisgado pela ficção.

Enquanto a falta de amor tira as cores da vida de uma recém-separada (“Pela moldura da janela”), as desconfianças de traição (“Pontos e nós”) não se confirmam nas investigações de uma mulher que vive uma relação duradoura. A velhice que chama a morte (“As borboletas azuis”) renova a dimensão humana na criança que parece dar continuidade aos passos da avó que se foi serenamente. A morte de uma irmã é o recomeço da vida da outra (“Sonata para violino em três vozes”).

A urbanidade sufocante desorganiza o equilíbrio da mulher, e a ficção o transfigura em fantástico. Sim, na subversão do real, sem alegoria entretanto, a mudança da paisagem com a construção de um prédio ao lado do que mora a protagonista desencadeia o insólito em “...Mas que los hay, los hay”. Entre a realidade e o delírio, ela sente a invasão do seu espaço, a perda da privacidade com a presença de pedreiros muito próximos à sua janela. A sensação de emparedamento na selva urbana a faz transpor o real e misturá-lo ao sonho que vira pesadelo e é, ao mesmo tempo, delírio: “Acordou de madrugada com a sensação de estar num navio à deriva. Num impulso sentou-se na cama e não acreditou em seus próprios olhos: o esqueleto de tijolos estava colado à janela do seu quarto, emparedando-a. Desesperada, acendeu a luz e viu o apartamento ser tomado por um bando de morcegos com caras humanas que voavam numa enorme algazarra. [...] Pela manhã ela foi encontrada com um relógio de pulseira preta puída na mão, repetindo sem cessar “Como morcegos, ao cair das badaladas, / saltam de viga em viga os mestres carpinteiros”” (p.38-39).

O mal-estar sartreano desse conto dá à ficção de Lourdinha uma dimensão existencialista, que se afirma prodigiosamente em “Quadros em movimento”, onde o gênero fantástico se realiza com perfeição. Uma moça, Ingrid, recém-chegada de viagem, “com a mala quase vazia, mas a mente repleta”, acrescenta mais um quadro na parede do seu apartamento. Ouvindo distraidamente Chico Buarque, ela não percebe que as figuras dos quadros ganharam vida e estão desertando das telas... desaprisionadas, conversam entre si e denunciam o momento em que foram detidas pelas tintas de algum pintor. Embora demonstre atordoamento, não há racionalização do insólito por um provável delírio da personagem, provocado pelo cansaço: “Durante a confusão, uma moldura caiu. Ingrid levantou-se atordoada. Estava mesmo precisando descansar, suas pernas pareciam não lhe pertencer. Apanhou o quadro e, ao colocá-lo de volta, parou perplexa: sua parede estava coberta de molduras, cujas telas não tinham um vestígio sequer de tinta” (p.45). O inexplicável aconteceu, e a prova são as telas brancas, abandonadas por suas imagens.

Já em “Casamento no Campo”, a sugestão do milagre ‘da multiplicação dos pães’ e da transformação da água em vinho traz uma intertextualidade com a Bíblia Sagrada, mas sem qualquer conotação religiosa. A mãe exige a presença do filho em uma festa de casamento dos vizinhos, cuja cerimônia simples já havia sido muito adiada em função das dificuldades financeiras. Cedo, o vinho acaba, e Maria (a mãe), vendo os amigos angustiados, pede a interferência do filho, que logo passa a encher as garrafas na torneira e... qual a surpresa: todos dizem que o segundo vinho servido é bem melhor que o primeiro que circulara. A possibilidade do milagre toma consistência em dois símbolos que sugerem ser Jesus Cristo o rapaz: o nome de sua mãe é Maria, e o pai é marceneiro. As sutilezas das descrições, entretanto, não permitem constatações, e a história flui no discurso da incerteza.

Em “Tentando acertar o passo”, é a solidão que leva a mulher ao mundo virtual e à busca de um amor por meio de chats de relacionamento. As características do mundo contemporâneo se desenham, enredadas nos sentimentos de desconforto com a existência: a solidão que leva a mulher a buscar amor de forma insegura (“Tentando acertar o passo”) no jogo da vida; a insegurança num casamento de muitos anos (“Pontos e nós”), que faz a esposa vasculhar os originais do romance do marido-escritor para encontrar-se no enredo e comprovar se está sendo traída, numa confusão evidente entre a ficção e a realidade; as limitações em função de problemas de saúde, que levam a personagem a mutilar os livros para poder lê-los, já que não pode mais sustentar o peso deles nas mãos.

Com já dissemos, nenhum problema culmina na ausência de soluções ou de pessimismo: a moça que procura amor no mundo virtual se decepciona, mas não desiste de sua busca; a esposa ciumenta descobre que o amor do marido por ela se renova por meio da criação; a leitora que não suporta o peso dos livros e vive a dilacerá-los procura montar uma clínica de recuperação de livros. Em outra perspectiva, a limitação aparece no conto “Um copo que cai”, quando uma criança sobre numa cadeira para pegar um copo na prateleira alta e sem chora ao vê-lo despencar-se de suas mãos, enquanto ouvia as recomendações da mãe.

Já no conto “Raios de sol”, que tem como personagens duas jovens estudantes, o ciúme se configura de modo nocivo, pois uma delas, com inveja do cabelo loiro da outra, por quem seu paquera é apaixonado, convida-a para dormir em sua casa e corta os seus cabelos (dela) durante a noite. O símbolo da força ligada ao cabelo retoma a história de Sanção, que perde os poderes quando Dalila corta-lhe as longas madeiras. No conto, sem os louros cachos, a moça perde o poder de sedução.

Em “Sonata para violino em três vozes”, a história se dá em dois momentos: Inicialmente, no ‘Primeiro andamento: lento’, se descreve o casamento feliz de Melina e sua gravidez até a sua morte durante o parto. No ‘Segundo andamento: ligeiro’, a desolação do viúvo logo passa com a dedicação das cunhadas ao bebê. A mais nova delas, Marissol, deixou seu violino na casa dos pais e passou a viver em função da criança, na casa do cunhado. Finalmente, acaba por casar-se com ele e tornar-se mãe da criança órfã de quem é tia. Em nenhuma descrição do conto esse fato se realiza, a não ser na sugestão final: “Ninguém se surpreendeu quando, um ano e meio depois, Artur atravessou a cidade com o velho violino de Marissol debaixo do braço” (p.64). São nuanças assim, sutis mas sorrateiras, para enredar o leitor atento, que dão consistência ao projeto estético das narrativas da escritora e marcam seu estilo enxuto e sugestivo.

Rompendo qualquer rótulo de escrita feminina, Lourdinha mergulha no universo masculino e dá foco às vivências deles. Situações do nosso tempo também avultam como leitmotiv: o intercâmbio do jovem que, fora do país, desenvolve uma síndrome de perseguição (Planejar pra quê?); o menino-leitor de revistas em quadrinho que se transforma em escritor (“Entre imagens e letras”); o menino que tinha obsessão por pés e se torna um fetichista maníaco (“Sapatos, pra que te quero?”); o marido que se vê incapaz de desvendar a alma da mulher amada (além das aparências”); a criança que não aceita a ausência do pai e passa a vê-lo num mendigo de rua (“A voz do silêncio”). Há, nos contos, desvendamentos e avessos, patologias repentinas, densidade psicológica. Os subtextos parecem saltar aos olhos do leitor.

A passagem inexorável do tempo e as transformações que ocorrem nas pessoas é marca dessa ficção que tem o humano como cerne, senão vejamos: a agenda da avó morta vira herança da neta, marcando a continuação da vida (“As borboletas azuis”); com o tempo, o viúvo resolve retomar a vida com a irmã da esposa falecida, renovando-se por meio do filho e do novo afeto (“Sonata para violino em três vozes”); o menino pobre, leitor de revistinhas rasgadas, que se acostumara a continuar as histórias com sua imaginação e contá-las aos amigos “com a magia e o deslumbramento provocados pela palavra” (p. 85), torna-se, na fase adulta, um escritor de revistas e vê no filho a sua mesma antiga paixão, só que, na vez dele, os personagens já não são pessoas comuns do mundo em que ele vivia, mas heróis parecidos com robôs (“Entre imagens e letras”), o que revela, mais uma vez o traço contemporâneo dos elementos ficcionais da escritora.

Outra história que parece emergir do passado é “Sapatos pra que te quero”, onde a narradora recorda um amigo que era esteta de pés femininos e toma conhecimento de que, depois de adulto, o fetiche continuou e tornou-se incontrolável, chegando a criar problemas do rapaz com a polícia.

Já em “A voz do silêncio”, um grupo de amigos, que foram jovens nos anos 60, fazem uma festa para promover o reencontro... recordam nomes, atualizam destinos, respiram ao som da Bossa Nova: “A emoção do reencontro foi, aos poucos, suspendendo o presente e trazendo de volta o passado. Eram os jovens da década de 60 que retornavam, irmanados, ao tempo da bossa nova: “Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser”. Alguns cantavam, outros tinham a palavra cortada antes mesmo de proferi-la, mas ninguém se importava” (p. 118). As rememorações discorrem quase sempre por meio de trechos de letras de música de Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Morais, num poético exercício de intertextualidade.

Um conto se destaca especialmente pela aparência com fatos reais ocorridos no universo literário: “O envelope amarelo pardo”, em que se conta a última ida de um escritor aos Correios, para postar livros aos amigos; quando chegaram ao destino e foi lida a dedicatória, os amigos já sabiam que, na volta para sua casa, o escritor havia sido atropelado e morto. As dedicatórias figuram como uma despedida. Pelo teor da história e seus desdobramentos, bem como pela descrição do personagem-escritor, Lourdinha parece homenagear o poeta José Alcides Pinto, que foi atropelado quando retornava dos Correios onde foi postar seus novos livros aos amigos que moravam fora da cidade. Não há, porém, nenhum elemento intratextual que marque essa certeza.
A última parte, “Dois pra lá dois pra cá”, a expressão que é verso de bolero já denota um compasso marcado pelo número quatro. De fato, são quatro contos que, dois a dois, contam e recontam a mesma história por meio de pontos de vista diferentes. – A verdade tem suas versões.

No primeiro par, temos o relato de dois irmãos que se tornam inimigos. Em “Costurando a trama”, um deles, o que foi traído, assume a narração para justificar por que fez a ‘mandinga’ para o outro ficar impotente (porém com a tentação do desejo): teve a sua mulher seduzida por ele. O relato se inicia como uma resposta negativa a um pedido da mãe de que retirasse a bruxaria feita. O discurso é pontilhado por clichês reinventados e bem contextualizados (“Tenho comido o pão que o João amassou; agora é tarde”, “o cão já mordeu a língua”; “quem mandou pegar no pote se a rodilha era alheia”) e intertextualiza a grande contenda bíblica entre Caim e Abel, o que fica patente a partir do nome dos dois personagens, embora o narrador chame atenção para que seja diferente, como se quisesse fugir da sina de irmãos predestinados a serem inimigos: “Meu nome é Ariel, mas qualquer semelhança com Abel é mera sonoridade” (p.125).

Em “Descosturando a trama”, o irmão ‘traidor’ conta como se apaixonou por Elisa, antes de ela engravidar e se casar com Ariel, de o quanto resistiu à tentação de envolver-se com ela; descreve os comentários sobre os maus tratos do irmão com a mulher e, finalmente, assume o delito: “Diz o ditado que quem puder fuja da paixão; nós não conseguimos. Durante um longo tempo, permanecemos no olho do furacão. Cponsumidos pelo fogo, descemos ao inferno e subimos ao céu. O tempo apagou o escândalo, e amadureceu as chamas” (p.131).

Já em “(Des)conto I” e “(Des)conto II” tem-se o mesmo início, mas desdobramentos diferentes para o mesmo crime, como no próprio relato se afigura, à moda Pedro Salgueiro, que no livro Brincar com Armas, utiliza magistralmente essa técnica.

Lourdinha Leite Barbosa, embora professora de Teoria da Literatura, não se trai ao utilizar teorias. Ela sabe modular seus conhecimentos técnicos e não permite que sua inventividade se submeta a eles. Brinca com as palavras, experimenta gêneros, cria imagens inusitadas, dialoga com suas leituras e cria telas com palavras sempre emolduradas por seu senso estético e sua sensibilidade. Pela moldura da Janela afirma, pois, seu talento e inventividade em transfigurar o jogo da vida em jogo de palavras, arte que desenvolve sem esforço, com segurança e domínio estilístico.

Aíla Sampaio

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Natal

Lourdinha Leite Barbosa

Braços se abrem, largos sorrisos,
passos adentram solar amigo.
Não trazem ouro, incenso ou mirra,
mas dizem versos, que espargem luz.
Vêm repetir gestos antigos,
compartilhar os seus escritos.
Braços se fecham num forte círculo
Fazem cirandas e cantam hinos
E abraçam unos o Deus Menino.

sábado, 27 de novembro de 2010

Ancoragem em porto aberto

Lourdinha Leite Barbosa

Ancoragem em porto aberto, livro de contos de Vicência Jaguaribe, surpreende-nos pelo tratamento dado à linguagem, pela construção dos enredos e pela caracterização das personagens. São trinta e seis contos, que abordam diferentes temas, embora a morte, em todas as suas formas, seja uma constante nesta obra, outros temas também estão ancorados em porto aberto, como a crueldade, a sedução, a traição e os desencontros amorosos.
Em “Uma palavra ao leitor”, a autora explica o belo título do livro, que também traz dois textos que desvelam alguns sentidos ocultos nos contos: “O olhar do leitor”, de Bia Jucá, e “Apresentação”, de Mônica Magalhães Cavalcante.
Vicência Jaguaribe, que hoje ancora em outro porto aberto, que é também o porto das publicações, é professora de estilística, de língua portuguesa e de literatura, mas, muito antes de conhecer a teoria, ela já conhecia a literatura através dos livros que lia vorazmente em criança e continua lendo pela vida afora. Mas, além de ser uma devoradora de letras, ela é também uma observadora atenta, possui uma memória extraordinária e muita imaginação. Com tais características o que mais pode desejar um escritor?
Segundo Antônio Cândido, no processo de criação combinam-se memória, observação e imaginação, em graus variáveis, sem que o próprio autor seja capaz de determinar a proporção de cada um desses elementos, uma vez que boa parte desse processo ocorre na esfera do inconsciente e chega à consciência sob formas disfarçadas que podem enganar. No entanto, muitos romancistas deixaram ou deixam elementos para se avaliar o mecanismo de criação de suas personagens; assim o fizeram José Lins do Rego, em Menino de Engenho, Proust, no célebre, Em busca do tempo perdido, Rachel de Queiroz, em seus romances. Vicência também se vale constantemente da memória. Ela mesma afirma, no início deste livro, que as histórias contadas por pessoas da sua família emergiram de sua memória e transformaram-se em matéria-prima de seus contos.
De fato, os contos, em sua maioria, têm, como ponto de partida, acontecimentos reais, mas a imaginação supera o fato verdadeiro e suas personagens ganham vida própria através da linguagem artisticamente trabalhada que lhes deu forma, por isso elas estão impregnadas de vida, uma vida cheia de tropeços e riscos, É essa humanidade que torna suas figuras de linguagem e de papel tão reais, que, ao lermos um de seus contos, encontramos semelhanças entre elas e as pessoas com quem convivemos.
Devido ao grande número de contos, todos eles de excelente qualidade, tornou-se difícil fazer uma seleção. Escolhemos, portanto, três textos de diferentes temas.
O conto que dá início ao livro, “Trazida numa rajada de vento”, que tem como epígrafe uma passagem do conto Dizem que os cães vêem coisas, de Moreira Campos, é um bom exemplo dessa criatividade, por sua estrutura e pelos recursos estilísticos utilizados. Apesar de a morte do pai da autora ser o fato gerador da narrativa, o que avulta é a invenção.
A história tem uma duração determinada, começa na hora do café da manhã e termina exatamente às 3h15min da tarde. Numa narrativa de tempo cronológico, nós, leitores, acompanhamos o percurso da personagem principal, um fabricante de redes, que, sem saber, é seguida de perto pela morte, desde o momento em que Ela apeia-se das asas do vento e senta-se à mesa com ele, até o instante em que Ela parte numa “rajada mais forte de vento, acompanhada de areia”. Merece um aparte o uso do verbo apear (descer da montaria ou veículo), regionalismo usado pela autora, em sentido figurado. A morte é personificada, mas não é nomeada uma só vez. Embora o narrador seja onisciente, ele se atém ao uso do pronome Ela (com letra maiúscula), mas, em compensação, encarrega-se de nos dar, aos poucos, os indícios de que a personagem está próxima do fim, restam-lhe somente algumas horas, como também pistas textuais de que Ela é a morte. O fluir do tempo é medido pelos sintomas da doença, que vão se agravando num crescendo do mais leve estremecimento à explosão final.
“Crueldade infantil” é outro conto baseado em um fato real. Vicência o dedica à menina em quem se inspirou para criar a personagem e, inclusive, pede-lhe desculpas pelo ocorrido. As personagens são três: duas irmãs de família abastada e uma menina pobre, parenta delas. Mas apenas uma das irmãs, a devoradora de livros, e a menina pobre participam diretamente da narrativa. Os fatos são contados por um narrador onisciente, que penetra na mente da garota pobre e revela seus pensamentos e sentimentos. É através desses pensamentos que conhecemos a condição econômica das irmãs e da própria menina pobre, as preferências delas em relação ao entretenimento e também o medo que ela tinha de quebrar algum objeto valioso da casa e ter que pagar.
Nesse conto, em diversas passagens, a voz do narrador confunde-se com a voz da menina, o que caracteriza o discurso indireto livre, mas, na maioria dos contos de Ancoragem em porto aberto, predomina o discurso indireto, embora, vez por outra, a autora utilize-se do discurso indireto livre e do discurso direto.

A fábula gira em torno de uma pequena bailarina de porcelana branca que ficava sobre a mesinha de centro e era o objeto do desejo da menina pobre, cujos olhos enchiam-se de lágrimas só de vê-la. As irmãs não davam a mínima importância ao bibelô ou às bonecas, uma delas só pensava em andar de bicicleta e brincar de esconde-esconde, e a outra só queria saber de livros, enquanto a menina pobre dava tudo para ter uma bailarina igual àquela. A complicação começa quando a menina sente falta do bibelô e a devoradora de livros diz que ele caiu e se quebrou. O clímax ocorre no momento em que a menina que tinha a cabeça cheia de livros faz uma proposta surpreendente à menina pobre e ela aceita, pensando somente no prêmio final. Essas duas passagens possibilitam uma leitura mais aprofundada (que não pode ser feita neste momento). A autora consegue descrever, com excelência, a manipulação realizada pela devoradora de livros para conseguir seu maléfico objetivo e a credulidade, a piedade e o amor demonstrados pela menina. Esses sentimentos contrários são revelados através de palavras, gestos, atitudes e expressões faciais das personagens. Após a dura prova realizada pela menina pobre, chegamos ao final da narrativa com uma sensação de ardor na boca.
“Pousa a mão na minha testa” é um conto fantástico, que aborda a viagem ao passado, mas, diferentemente da linha tradicional, surge revestido de uma perspectiva moderna. A personagem do conto amanhecera com o verso de Bandeira na cabeça: Não te doas do meu silêncio. Mesmo cheia de afazeres, não conseguia se livrar do verso. Por fim, lembrou-se de que, há muitos anos, brigara com o namorado e, como forma de reaproximar-se, mandara-lhe esse verso e pedira que ele procurasse o poema e o completasse para ela. A família do jovem mudara-se da cidade e ele nunca lhe deu resposta. Ela não entendia por que, de repente, as lembranças do passado invadiam o presente. E mais assustada ficou quando abriu o computador e leu o verso seguinte do poema na página branca do Word. E, apesar de todas as providências terem sido tomadas, os versos foram surgindo na tela do monitor até completar-se o poema, sem que a personagem encontrasse explicação plausível para o fato. A chegada de uma carta enviada pela filha de Mauro, o ex-namorado, na qual ela dizia estar enviando-lhe um envelope a pedido do pai, que falecera há quinze dias, tornou o fato mais inexplicável ainda, pois ele morrera exatamente no dia do acontecimento insólito. Dentro do envelope estava o poema completo e o pedido de perdão.
A professora e escritora Aíla Sampaio, em Os fantásticos mistérios de Lygia, afirma que a viagem no tempo encontra-se entre os motivos mais utilizados pelo gênero e cita o caso da personagem Laura, de “Noturno Amarelo”, que volta ao passado para pedir perdão à família por todas as promessas não cumpridas. Em “Pousa a mão em minha testa”, a personagem Mauro, na hora da morte, utiliza-se de um meio de comunicação ultramoderno para pedir perdão à antiga namorada. Como se disso dependesse o sucesso da travessia final. A viagem ao passado se faz apenas através das lembranças da mulher, sem nenhuma anormalidade. O que ultrapassa o senso racional e instaura o inexplicável é o fato de um computador digitar sem o comando de alguém, e sem que haja qualquer alucinação ou embuste.
Para encerrar estas considerações, queremos destacar, ainda, os contos alegóricos: “O jogador”, “Mais uma última partida”, “A outra partida” e “O abissal Rio-Oceano”, todos eles metáforas da difícil arte de viver.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Seminário Cem Anos de Rachel de Queiroz na 9ª Bienal Internacional do Livro do Ceará


Agradecemos ao Secretário da Cultura do Ceará e aos organizadores do evento a oportunidade de divulgar a obra de Rachel de Queiroz, a grande voz feminina do Modernismo brasileiro.
Durante os dois dias do seminário, 16 e 17 de abril, contamos com uma frequência atenta e participativa no auditório As Três Marias. As palestras, debates, depoimentos foram instigantes e nos trouxeram preciosas informações sobre a vida e a obra de nossa Rachel.
Ficamos felizes porque quatorze escritores cearenses - professores, pesquisadores, estudiosos da obra de Rachel de Queiroz – e três do Rio e de São Paulo aceitaram nosso convite e nos ajudaram a divulgar a obra de Rachel e a mostrar sua importância para a Literatura Brasileira.
A professora e crítica literária, Heloisa Buarque de Holanda, denominou sua fala Rachel, Rachel e preferiu intercalar histórias sobre a amiga com comentários sobre a obra da romancista.O público adorou essa deliciosa conversa informal.
O romancista Antônio Torres contou alguns fatos engraçados retirados de uma crônica de Carlos Heitor Cony sobre Rachel e falou de seu respeito pela escritora e do amor, compartilhado por ambos, pelo sertão.
O professor Benjamin Abdala Júnior falou sobre O Quinze hoje e analisou aspectos que comprovam a atualidade da obra. Após a palestra, os questionamentos e comentários se estenderam e só encerramos os debates porque outro acontecimento teria lugar no auditório

segunda-feira, 22 de março de 2010

Na ponta da língua



A língua define o mapa,
traça linhas, tece fios,
entre dentes desafia os
que querem amordaçá-la.
Rebela-se solta o verbo,
dá com a língua nos dentes,
rompe barreiras, renova-se,
une povos, continentes.

Lourdinha Leite Barbosa

domingo, 14 de março de 2010

Encantadores de palavras


As palavras irrompem de repente,
saltam sobre o espaço em branco,
salpicando-o de ocultos sentidos
Olhos sôfregos tentam,
inutilmente, desvendá-los.

Inefáveis, elas se esgueiram e
aos encantadores se oferecem simplesmente.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Louvação à Bitoca, Beatriz


Beatriz versátil e múltipla,
de todas as artes amante, de várias línguas falante
Beatriz de tantas amigas, amigas de todas as cores.
Beatriz de grandes amores, dos Laurinhos,
o Júnior e o Neto que é filho,
do Pedro que é pedra e da Beatriz que é Bia.
E o que dizer da Sassá, que adora saçaricar,
e da bela Isabela? São desdobramentos dela.
Beatriz das invenções! Se a mesmice a incomoda,
ela volta a ser menina, inventa um faz de conta,
pinta o sete, faz ciranda, caminha na corda bamba,
tenta apanhar uma estrela, pois o sonho e a brincadeira fazem bem ao coração.
Beatriz itinerante, viageira, viajante. Segurem-na, por favor!
Senão ela pega o voo e nos deixa a ver navios.
E o que faremos sem ela?
Fechem portas e janelas. Bitoca! Ei, Beatriz!
Dessa vez foi por um triz...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

À amiga que partiu


Para Doralice Maracaba

Ainda ontem a vi.
A tarde se alongou
Entre palavras e risos
Ela me disse feliz:
Vou fazer uma viagem.
E partiu sem dizer nada,
Sem mala e sem passagem,
Para ignoto destino
Antes da hora marcada.

A indesejada das gentes,
Sem aviso ou sobreaviso,
Entrou sem pedir licença,
Desconsiderou pedido
E cortou o tênue fio
Que mantinha presa a vida.
A vida que estancou,
Sem sequer saber por quê,
Evanesceu como um sopro
E havia tanto a dizer

O mistério se instala
No instante derradeiro,
Os olhos fitam o além,
Mas o além já não há,
Só dois olhos que não veem
A correnteza passar,
Pois o tempo já está fora,
Não tem quando nem lugar.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A viagem

Chegou atrasada à estação e dirigiu-se ao guichê nº 3. Deu a senha: Hâdi. O atendente, um homem magro e alto, olhou-a fixamente, através das lentes grossas, e pediu que aguardasse um pouco. Voltou com um livro na mão e perguntou-lhe se estava preparada para a viagem. Só depois da resposta afirmativa, entregou-lhe o tíquete e o volume encadernado.

Tinha poucos minutos para chegar à plataforma 7 e pegar o trem.. Entrou no vagão e procurou o seu assento. A excitação a dominava. Sentou-se, tentando manter a calma. Antes de abrir o livro, observou cuidadosamente as poucas pessoas ao redor. Na sua fileira, estava um homem de paletó, lendo uma revista. Ao se sentir examinado, ele levantou a vista e fixou-a com olhos azuis profundos. Uma fila à frente, sentava-se uma senhora de meia idade, vestida com correção. Nas primeiras poltronas, dois velhinhos conversavam animadamente. Uma jovem, que vestia um terno cinza e segurava uma pasta de couro, escolhera um lugar próximo à janela. O que essas pessoas teriam em comum com seu namorado?

A capa do livro não trazia qualquer inscrição. Na primeira página, havia uma palavra, que devia ser o título, numa língua desconhecida, e nada mais, sequer o nome do autor. Passou as páginas e viu que seria inútil tentar entender algo. Além do texto, havia inúmeros desenhos, alguns bem estranhos: uma figura dividida ao meio, uma metade macho e outra fêmea, dentro de um ovo, que se equilibrava sobre um dragão alado; um pássaro de asas abertas, cuja sombra era uma figura humana; uma cruz, cujos braços terminavam em triângulos e, embaixo de cada braço, um círculo com um quadrado dentro. Em uma das páginas, alguém havia rabiscado uma seta, que apontava para um círculo sextavado, com vários círculos concêntricos, interrompidos em determinados pontos. Concentrou sua atenção nesse símbolo, procurando decifrá-lo.
O trem ganhou velocidade e foi engolido pela escuridão. Não passavam por nenhuma vila ou cidade. A ansiedade impedia seu raciocínio. Será que os outros passageiros também viajavam para o desconhecido? Ela estava ali por acaso. Ou não?

Tinha encontrado o misterioso bilhete, com a hora da viagem, o número do guichê e o código, sobre a mesinha de cabeceira do namorado e resolvera pegar o trem no lugar dele para descobrir aonde ele ia e com quem. Isso só podia ser coisa de mulher. Sorrateiramente, apossou-se do bilhete e decidiu descobrir por si mesma. Agora, varava a noite, sem conhecer o destino ou o motivo da viagem.

Sentiu sede e dirigiu-se ao restaurante, mas lá não havia viva alma. Continuou atravessando os vagões até o último: todos vazios. Voltou assustada. Seus companheiros de viagem continuavam tranqüilamente em seus lugares. Nervosa, disse, em voz alta, que o único vagão ocupado era aquele em que estavam. Todos se entreolharam perplexos. Os dois velhinhos falaram entre si, como se não tivessem entendido. A senhora de meia idade procurou acalmá-la:
— Nesta hora, os passageiros são raros.
— E o restaurante, por que não está funcionando?
— Talvez por causa do horário e do percurso, que é curto.
Contemporizou o homem de olhos azuis.
— Tão curto, que nos deixam sem água?
— Podemos pedir ao camareiro.
— O senhor viu algum camareiro ou outro funcionário qualquer desde que saímos?
Depois da saída, nenhum empregado entrou neste vagão.
De repente, a velocidade diminuiu e um forte clarão surgiu à frente. Lentamente se aproximaram de uma estação tão iluminada, que ela pensou que o dia estivesse nascendo. Quando o trem parou de vez, ela desceu e a jovem de cinza a acompanhou. Procuraram uma indicação que lhes informasse onde estavam, mas não havia qualquer letreiro. O prédio estava deserto e as paredes completamente brancas e nuas. Sentiu um calafrio, segurou o braço da companheira e voltaram correndo a seus lugares. O homem de paletó marinho afirmou que não havia motivo para agitação.
— Pode ser que a estação ainda não tenha sido inaugurada.
Justificou.
— E qual o motivo de tanta iluminação?
— Devem ter esquecido de apagar as luzes.

Bobagem! Insatisfeita, ela lembrou-se do livro. Não o encontrando sobre a cadeira onde o havia deixado, abaixou-se para ver se tinha caído. Estremeceu, ao ouvir a voz da senhora de meia-idade:
— Está procurando isto? Não resisto à curiosidade quando vejo um livro. Que língua é esta? Conheço muitas, mas nunca vi nada semelhante.
— É uma língua indígena.

Desconversou e tomou o volume das mãos da mulher. Nisto, notou que os velhinhos não estavam no vagão. Correu até à janela e respirou aliviada, ao ver que o casal caminhava de volta, apoiando-se um no outro.

Examinou mais uma vez a figura do círculo sextavado: os círculos se embaralhavam e confundiam. Lembrou-se de que, quando criança, seu pai costumava comprar uma revista, que trazia palavras cruzadas, advinhas, jogos e um deles era semelhante ao desenho, só que, no centro, havia sempre um animalzinho perdido. Sua tarefa era ajudá-lo a encontrar a saída. O que isso tinha a ver com a viagem? Essas pessoas estariam em perigo?

Cochilou um pouco e acordou meio confusa. Percebeu que o trem se arrastava lentamente. Olhou para fora e nada viu. Os passageiros arrumavam seus pertences como se, ali, fosse o fim da linha. Ao longe surgiu o prédio de uma estação e, pouco a pouco, pôde divisar uma figura feminina, sozinha de pé na plataforma. A máquina estacionou e a moça, lentamente, virou o rosto para ela. Ficou paralisada pelo pavor: a mulher que da plataforma a fitava era ela mesma.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sete palmos, sete chaves, sete salmos

Sete palmos, sete chaves, sete salmos
para Bia Jucá

Embaixo de sete palmos
Estão mortos sepultados
Meus ardores, meus ciúmes,
Meus anseios, meus cuidados.

Embaixo de sete chaves
Estão presos, bem guardados,
Meus louvores, meus queixumes,
Meus anseios, meus chamados.

Embaixo de sete salmos
Estão selados, lacrados,
Meu destino, desatinos,
Meus amores olvidados.